terça-feira, 31 de julho de 2012

FALANDO A MESMA LÍNGUA*

Um dos desafios que o aluno encontra ao longo de sua trajetória acadêmica, e posteriormente a ela, é a de entender e explicar o que de fato ele faz. Inicialmente isso ocorre em casa, quando ele se vira para a família e diz que quer ser Designer Gráfico, e recebe de volta perguntas ainda mais instigantes do que tal afirmativa: o que esse sujeito vende? Dá para ganhar dinheiro fazendo isso? Tempos depois se vê mergulhado em dúvidas, equívocos e percepções reducionistas por parte dele mesmo e daqueles que o enxergam (e o confundem!) apenas como o profissional das "soluções criativas", o mágico que tira vários coelhos do photoshop. 

Hoje, com a palavra "design" sendo aplicada em tudo quanto é lugar, acredito que é até bem mais fácil de se manter um diálogo acerca da profissão. Pelo menos quanto ao que ela, de fato, não é! Mas a dificuldade ainda existe e persiste, o desafio é grande, principalmente quando o assunto adentra o campo das definições e nomenclaturas, tanto na esfera do senso comum quanto entre os próprios profissionais. Aí a coisa complica. Se antes lutávamos para equacionar o problema em âmbito familiar, nos dias atuais vivenciamos um processo de banalização contínua quanto ao emprego de termos e descrições próprias, além das famigeradas autoproclamações.

Bruno Porto, um reconhecido designer gráfico, conta uma pequena história no recém-publicado livro "Logotipo versus logomarca: a luta do século", da editora 2ab, que ilustra bem o nosso enredo. Um belo dia, o telefone toca e do outro lado da linha uma voz aparentemente de uma senhora faz a seguinte pergunta:
– Quanto custa fazer um folder?
– Um folder pra quê? – pergunta ele.
– Um seminário de psicologia. O texto já está pronto e não tem fotos.
Já com um certo grau de desconfiança, ele ouve a senhora enfatizar as dimensões da peça: um folder de noventa centímetros por um metro. Ela na verdade queria um banner.

Porto (2012, p. 14) entende que:

"Se uma classe profissional não define e utiliza de forma correta seu vocabulário, quem irá fazer isso por ela? Quando um chama de comunicação visual, outro de criação gráfica, outro de design visual, outro de desenho gráfico, a desvantagem é que isso acaba por confundir (...). Confunde a todos e, até onde entendo, confusão não é uma coisa boa. Especialmente para um mercado que ainda está tentando se entender".

Uma profissão que se coloca a serviço dos diferentes meios de comunicação, que busca reduzir complexidades ao projetar interfaces para uso cotidiano, deve se preocupar e muito com a leitura que os interlocutores fazem – como a senhora do folder – e assumir um discurso que possibilite o entendimento mútuo e multiplicador.

Para cada área do conhecimento e campo de atuação existe uma instância que atua a favor da validação de ações e termos a serem empregados, que atua como referencial e a credencia como prática profissional. No caso do design – uma profissão nova se compararmos a arquitetura e a engenharia, por exemplo –, que se projetou em meio a Revolução Industrial, promoveu uma incursão no país entre as décadas de 1950 e 1960 no que se refere ao seu ensino e encontra-se em fase de regulamentação, um dos grandes referenciais ou pelo menos busca se posicionar como tal, é a ADG (Associação dos Designers Gráficos), fundada em 1989.

Assim como o livro citado anteriormente, esta associação publicou neste ano um glossário de verbetes atualizado, o ABC da ADG, como parte efetiva do seu engajamento no que se refere a disseminação de um vocabulário comum aos profissionais e interlocutores, capaz de contribuir para a comunicação e uma consequente valorização do conteúdo teórico-discursivo do designer gráfico. 

Para que tal esforço seja legitimado e consolidado na vivência cotidiana, cabe as universidades e instituições de ensino se posicionarem quanto a esta urgência, tendo no currículo e principalmente na figura do docente, as contribuições necessárias para a formação de argumentos e do discurso do aluno ao longo de sua trajetória acadêmica, assim como no campo da pesquisa, mercado e na própria área da docência.

Além de sua leitura técnica, o designer gráfico será reconhecido e percebido nas diferentes esferas do cotidiano pela forma como entende e "fala" da sua profissão, contribuindo assim para a construção da própria imagem e da valorização da área do conhecimento da qual é parte integrante.

Referências:
ASSOCIAÇÃO DOS DESIGNERS GRÁFICOS. ABC da ADG: Glossário de termos e verbetes utilizados em design gráfico. São Paulo: Ed. Blucher, 2012.
PORTO, Bruno. Nomenclatura: para que simplificar se podemos confundir? In: ______. Logotipo versus logomarca: a luta do século. Teresópolis, RJ: Ed. 2AB, 2012. p. 10 a 15.

*Texto originalmente escrito e apresentado 
no curso de 'Pós-Graduação em Docência no Ensino Superior' (Estácio-RJ) para a disciplina 'Argumentação e Discurso', ministrada pelo Professor Alexandre Brite. 

sábado, 9 de junho de 2012

O "SUJEITO DIDÁTICO" E A ANTIDISCURSIVIDADE


Uma vez me disseram que eu era um "sujeito didático". Isso se repetiu em outras ocasiões e então passei a acreditar que, de fato, eu fazia parte do grupo daqueles que conseguiam "transmitir bem uma ideia" em um projeto, de forma que quem a estava "comprando", saía satisfeito. Alguns anos depois, me encontro imerso num processo de desconstrução e reconstrução de conceitos, de questionamentos com viés docente, inclusive quanto aos rumos do meu "fazer design". Aquilo que muitos me diziam lá no início e do qual me orgulhei por um bom tempo, não estava me levando para lugar algum. 

Não fui didático assim como não sou didático, pois tal prática não termina em mim, nem no outro, como se este último finalizasse a relação no momento em que pronunciar "entendi". Esta abordagem perdura em toda e qualquer comunicação pautada na construção de novos saberes e em suas transformações. Considero-me sim, um sujeito em busca de uma formação contínua no exercício dessa prática, baseada na pluralidade, nas diferenças, nas relações interdisciplinares e interculturais, nos valores éticos, na reflexão da própria prática. 

Embora esta área do conhecimento, leia-se design gráfico, goze de uma liberdade por transitar e promover transformações em diferentes cenários socioculturais, o que dá ao profissional da prática projetual a oportunidade da pesquisa, da troca, da construção de conhecimentos e experiências de forma muito ampla, o fato de ser reconhecido de maneira reducionista como o centro da geração de "soluções criativas" e portanto, a necessidade imediata de dar satisfação muitas vezes meramente de competência técnica, ainda a distancia dos argumentos, da expressão textual, dos aportes teóricos que deveriam ser desenvolvidos durante a trajetória acadêmica do designer e posteriores a ela por meio do poder de reflexão do indivíduo. 

Bonsiepe (p. 232)  nos diz que:

"Pela expressão 'comportamento reflexivo' deve-se entender um pensamento formado discursivamente, vale dizer, um pensamento que se manifesta na forma de linguagem. A tentativa de incluir a linguagem num programa de ensino do design vai até os anos 1950. (...) existe uma considerável necessidade de recuperação dos estudos da linguagem de textos, nos programas de ensino, sobretudo na área de comunicação visual. A tradição antidiscursiva e a predisposição antidiscursiva no ensino do design se fazem sentir ainda hoje".

Acredito ser este o grande desafio a ser enfrentado na docência superior na área do design gráfico e na consequente contribuição para a formação de um novo profissional. Que este indivíduo seja mais do que um candidato ao sucesso, mais do que um "sujeito didático". É exatamente neste contexto que reside o trabalho do docente e do profissional do design, imerso num processo de desconstrução e reconstrução, reflexivo, dialético e contínuo.

Referências:

MASETTO, Marcos Tarciso (Org.). Docência na Universidade. Campinas: Papirus, 1998.

BONSIEPE, Gui. Design, cultura e sociedade. São Paulo: Blucher, 2011.

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

NAVEGANDO EM MARES DISTANTES


Nada como renovar nossos agradecimentos. Registro aqui o quanto fiquei feliz ao ver o Refinaria77 no twitter do Ericson Straub, da conceituada Revista abcDesign. Uma grande honra. Obrigado Ericson!!

Neste mesmo clima, agradeço imensamente a Ligia Fascioni por fazer parte de sua recheada lista de blogs de design. Ligia, muito obrigado!! Finalizando, aproveito o ensejo para agradecer aos diversos amigos que contribuem para a disseminação das reflexões expostas aqui, no R77.


Abs

domingo, 29 de janeiro de 2012

DA DIDÁTICA AO DESIGN*



Uma pergunta recorrente, daquelas que fazíamos e ainda ouvimos muito na fase escolar, me vêm à mente após adentrar os estudos da disciplina 'Didática I', ministrada pela professora Adélia Koff (2011), inicialmente através da abordagem pedagógica tradicional, aquela enraizada no ato de transmitir informação. Então perguntamos: por que devo aprender isso? ou quem sabe, para quê aprender aquilo?

Tal questionamento acima tem sua razão de existir na trajetória escolar do aluno. Se não conseguimos projetar sentido e significado àquilo que está sendo "transmitido" em sala de aula, não iremos exercer nem mesmo interiorizar tal conteúdo, praticando o simples ato de decorar. Chamaria de 'educação finita', aquela com prazo de validade. O indivíduo se equilibra naquilo que é dito e transmitido, então memoriza e reproduz até que o conhecimento seja substituído por outro e mais outro, percorrendo toda a sua jornada escolar.

O impacto é negativo e a longo prazo, pois adquiri-se ojeriza àquelas disciplinas comumente rotuladas como 'desnecessárias' pelos mesmos que disseminam as perguntas colocadas em pauta. O efeito é prolongado e desastroso, com consequências no instante em que o aluno ingressa no ensino superior. Vemos que o hábito de lidar superficialmente com temas sócioculturais, políticos e históricos se estende sem criticidade. Um ensino que produz 'seres acríticos'.

Devemos aprender a aprender, já dizia a abordagem escolanovista. Aqueles que abraçam tal prática conseguem projetar sentidos e significados. Percebem que estão mergulhados em um processo de construção e reconstrução, de transformação e de descoberta, de si para si mesmo e para os outros, continuamente. Esta abordagem enfatiza o conhecimento construído a partir do contato direto do sujeito com a realidade do mundo. Um processo em via de mão dupla.

Tal conceito se encaixa perfeitamente numa tendência atual do design, conhecida por 'design thinking', que de forma resumida seria a ação ou prática de pensar o design. Ellen Kiss, professora e coordenadora acadêmica da Pós-Graduação em Design Estratégico da Escola Superior de Propaganda e Marketing de São Paulo (ESPM) nos diz que:

O foco de abordagem é totalmente no usuário, no indivíduo. É entender, compreender quais as reais necessidades, desejos das pessoas, como elas se relacionam com as outras ou com determinados produtos ou serviços. Muda o foco da capacidade produtiva de uma empresa para uma demanda do usuário. (...) Vou fazer uma investigação muito mais profunda a respeito do indivíduo do que uma pesquisa quantitativa poderia me fornecer.

A coordenadora enfatiza que esta tendência do design trabalha "no formato de colaboração, colocando todos os agentes em uma mesma área para trabalhar e criar coletivamente. Isso permite uma integração muito maior."

Racionalidade, eficiência e produtividade. Características cada vez mais valorizadas e requisitadas em nossa sociedade, em nosso dia a dia, exaltadas pela abordagem tecnicista e neotecnicista. Adquiri-se conhecimento técnico-prático para em pouco tempo abastecer uma área específica do mercado cuja demanda grita bem alto e nem sempre em português. Somos reconhecidos pelo desempenho em quantidade, principalmente, no menor tempo possível. Precisamos ir além disso e equilibrar os pesos entre as necessidades mercadológicas e a formação do cidadão. E como diz o professor Marcos Masetto (1998):

Nossos alunos precisam discutir conosco, seus professores, os aspectos políticos de sua profissão e de seu exercício nesta sociedade, para nela saberem se posicionar como cidadãos e profissionais.

Concluo considerando como espinha dorsal, assim como a própria disciplina o faz, os princípios abordados pela pedagogia crítica, que além de expor e favorecer o diálogo nas relações interculturais em diversos âmbitos, relaciona-se diretamente com a formação do designer e com sua a prática. Pelo menos deveria ser assim. Liberdade para transitar em diferentes campos e a valorização das diferenças estão ligadas aos processos de criação dentro dos mais variados projetos.

Pensar design é teorizar e praticar o exercício das relações entre os diferentes grupos socioculturais, é discutir em esferas além da materialização de uma marca, peças e produtos, é buscar o benefício da integração, aproximar pessoas, é investigar, e como a 'didática crítica', pautado na pluralidade.

Referências:
KOFF, Adélia Maria Nehme Simão. As abordagens pedagógicas I e II. Texto especialmente elaborado para a disciplina Didática I do Curso de Docência no Ensino Superior da Estácio de Sá. Rio de Janeiro, 2011.

KISS, Ellen. Conceito do design thinking entra na pauta da criação. Disponível em: http://www.designbrasil.org.br/noticias/conceito-do-design-thinking-entra-na-pauta-da-criacao Acesso em: 21 out. 2011.

MASETTO, Marcos Tarciso (Org.). Docência na Universidade. Campinas: Papirus, 1998.

*Texto originalmente escrito no curso de 'Pós-Graduação em Docência no Ensino Superior' (Estácio-RJ) para a disciplina 'Didática I', ministrada pela Professora Adélia Maria Nehme Simão e Koff. Adaptado para o blog.

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

FORMAÇÃO CONTÍNUA E DESESTRUTURADA (PARTE 2)*


Durante minha trajetória acadêmica, iniciada pelo curso de Engenharia Civil, onde o 'ser utilitário' é tão resistente quanto os alicerces que sustentam essa profissão, encontrei a liberdade criativa no design gráfico, porém, sem me dar conta, e hoje vejo assim, de que mesmo distante do concreto e das vigas estava tão próximo da 'utilidade' quanto na primeira. 

Ao longo desses oito anos dentro de duas universidades, não fui motivado o suficiente para enxergar um 'sentido' e 'função' além do horizonte do ofício. Em parte, admito uma imaturidade provinciana, que me levou a negligenciar a busca por meios de expandir os níveis apresentados como forma de ser catapultado diretamente para o mercado, mas considero responsabilidade da instituição de ensino garantir ao estudante a possibilidade de contato com conteúdo disciplinar que o faça refletir sobre seu caráter formativo, e não apenas sob o "predomínio da razão instrumental", como o professor Pedro Goergen deixa claro em suas análises e convicções.

E concluo com suas palavras quando diz que "ao mesmo tempo em que a universidade deve produzir competentemente conhecimentos, ela não pode descuidar do olhar crítico, da reflexão acerca do sentido social daquilo que produz", por isso a necessidade de uma disciplina com a abordagem proposta aqui anteriormente. Em suma, os resultados precisavam ser e continuam sendo, necessariamente, imediatos. O império do imediatismo está longe de declinar. Goergen coloca bem a questão da utilidade quando diz que esta é "o novo fetiche, a nova entidade mágica a comandar todo o desenvolvimento do conhecimento e da tecnologia como motores do desenvolvimento e do progresso".

Trazendo isso para nossa realidade, em âmbito nacional e principalmente em nosso estado, estamos vivenciando um processo que se intensificou logo após a escolha do Brasil como sede dos jogos olímpicos e da copa do mundo de futebol, sem esquecer, e seria leviano da minha parte, do protagonismo que a área petrolífera vem conquistando em grande velocidade. A necessidade do instrumento técnico de abastecimento é clara e evidente.

Diante das questões apresentadas por Goergen e pautadas aqui, referindo-se ao "conhecimento como mercadoria, do produto acadêmico como produto industrial e da universidade como empresa", conclui-se que, em decorrência deste processo, a formação contínua e desestruturada daquele estudante desenhado no início dessas linhas (ver parte 1) está bem longe de ser encarada como um problema. Vejo com urgência que aqueles que encontram-se percorrendo o nobre caminho da docência, e direciono minhas palavras com certo apreço para a área de design gráfico, discutam e disseminem as questões apresentadas aqui para que possamos de alguma forma interferir neste cenário, com a exclusiva intenção de criar novas perspectivas para o ensino superior em nosso país.

Referência:
GOERGEN, Pedro. Universidade e responsabilidade social. In: LOMBARDI, J. C. (Org.). Temas de pesquisa em educação. Campinas: Autores Associados, 2003. p. 101-122.

*Texto originalmente escrito no curso de 'Pós-Graduação em Docência no Ensino Superior' (Estácio-RJ) para a disciplina 'História e Política do Ensino Superior', ministrada pela Professora Alzira Batalha. Adaptado para o blog.