sábado, 13 de dezembro de 2014

A FORMAÇÃO REFLEXIVA DO DESIGNER GRÁFICO*

O que vem a sua mente quando falamos em design gráfico? Qual o valor atribuído por você a sua essencialidade para a sociedade? É possível enxergá-lo de forma inteligível no seu dia a dia? Em que condições ocorre esta relação?

Ao designer gráfico cabe muito mais do que a responsabilidade de criar soluções mirabolantes e imediatistas para problemas de comunicação visual. Cabe a ele muito mais do que representar graficamente, por meio de desenhos, letras, cores e programas gráficos a ideia de alguém para algum fim comercial pré-determinado.

Podemos dizer que hoje esta profissão tem, de fato, maior projeção do que há tempos atrás. Por um lado, o acesso à tecnologia e consequentemente o manuseio das novas mídias contribuiu e vem contribuindo para uma exposição em massa. Por outro, onde reside o perigo, ocorreu uma aproximação do pseudo-profissional, construído no cotidiano de muitas reproduções e de pouca compreensão, desprovido de argumentos teóricos, contribuindo para um processo de banalização.

O que fora um hobby, o fato de possuir uma plataforma com photoshop ou simplesmente aquele jargão popular 'ter jeito pra coisa', ganhou status de profissão, a ponto de promoverem uma autoproclamação generalizada. Apropriaram-se da nomenclatura, descontextualizaram-na, criaram métodos e definições próprias. Cabe aqui uma questão: o que faz o designer gráfico, durante o seu percurso acadêmico e sua consequente exposição no mercado, interiorizar a importância de ser percebido e reconhecido como um ser reflexivo, que pensa o design, capaz de disseminar as bases teóricas que caracterizam e fortalecem esta área do conhecimento, diferenciando-se da mera prática utilitária-imediatista e da banalidade?

Desmistificando e construindo
Inicialmente, é importante abordar o que de fato caracteriza o comportamento deste almejado ser reflexivo. Gui Bonsiepe (2011, p. 232) contribui ao definir que

pela expressão 'comportamento reflexivo' deve-se entender um pensamento formado discursivamente, vale dizer, um pensamento que se manifesta na forma de linguagem. A tentativa de incluir a linguagem num programa de ensino do design vai até os anos 1950. [...] existe uma considerável necessidade de recuperação dos estudos da linguagem de textos, nos programas de ensino, sobretudo na área de comunicação visual. A tradição antidiscursiva e a predisposição antidiscursiva no ensino do design se fazem sentir ainda hoje.

Embora esta área do conhecimento goze de uma liberdade por transitar e promover transformações em diferentes cenários do cotidiano, o que dá ao profissional da prática projetual a oportunidade das relações inter e transdisciplinares, da pesquisa, da construção de conhecimentos e experiências de forma muito ampla, o fato de ser reconhecido de maneira reducionista como o centro da geração de "soluções criativas" e portanto, a necessidade imediata de dar satisfação muitas vezes meramente de competência técnica, ainda a distancia dos argumentos contundentes, da expressão textual, da discursividade e dos aportes teóricos que deveriam ser desenvolvidos durante a trajetória acadêmica do designer e posteriormente a ela por meio da reflexão sobre a própria prática.

Para Alexandre Wollner (2003, p. 20), um pioneiro do design nacional, "a princípio, todo mundo pode ser um designer. Isso só depende de treinamento". De fato, como instrumental técnico, basta o acesso aos softwares 
de criação por meio de cursos rápidos, alguém que já os manipule ou de um bom manual. Seguindo este raso raciocínio, atravessar anos em uma faculdade é atrasar aquilo que se pode realizar em muito menos tempo. E ainda existe àquele que mesmo vivenciando diariamente o ambiente acadêmico, não desenvolve a capacidade de enxergar além da praticidade. Tanto o primeiro quanto o segundo, ao ser confrontado, questionado, no momento de exercer sua autoridade como sujeito conhecedor daquilo que o credencia a ser profissional, a rasa formação não o permite fazer. Wollner (2003, p. 20) complementa ao dizer que

se for só técnico, vira engenheiro; não pode ser só intuitivo, senão é artista. Vai precisar de um ferramental técnico, de uma linguagem, de uma tecnologia, e terá que saber falar, comunicar-se, explicar o conceito para o cliente, justificar determinadas escolhas e caminhos.

Podemos ver que diferenciar-se é estar inserido num contexto com propósito claro de promover mudanças, transformações que beneficiem o ambiente onde vivemos assim como aqueles que o compartilham. Ao passar para o campo das intervenções, este profissional se vê diante da necessidade constante de problematizar e contextualizar cada ação a ser realizada. Isso ocorre quando sua base intelectual encontra-se enraizada numa formação reflexiva, que o capacita a romper paradigmas, a determinar caminhos, a elaborar questionamentos aos valores vigentes, àquilo que está sendo proposto ou imposto por diferentes linhas de conduta. Certamente essa postura favorecerá o descondicionamento do olhar automatizado, tanto do sujeito que promove uma informação quanto daqueles que a recebem, absorvem e a digerem no cotidiano. 
Bonsiepe (2011, p. 179) coloca que:

A prática profissional, sujeita as pressões da vida cotidiana, dificilmente permite cultivar atividades teóricas. Elas poderão ser um peso morto para os negócios (o
 lean business); assim como a produção de poesias, não contribuem para o crescimento do PIB.
                                 
O autor nos arremessa na realidade. Revela o aprisionamento, a escravidão, onde as bases conceituais são ferozmente suplantadas pelo império do imediatismo. E o profissional acaba se estabelecendo como uma espécie de hospedeiro desse vírus, propagando e infectando o mercado. O processo cresce, se fortalece, vai sofrendo mutações. As empresas valorizam a destreza dos que produzem em menos tempo, ganham adeptos, passam a usar critérios fundamentados nessa prática e promovem novas contratações. O mercado assume uma postura, consome, gera valores e o ciclo se torna cada vez mais intenso. As instituições de ensino entram no jogo ao criar cursos e disciplinas direcionadas mais para o abastecimento técnico – que reconhecida e inegavelmente tem o seu valor – do que para uma formação intelectual, discursiva, argumentativa, e assim o processo formativo se distancia do propósito da construção de novos saberes. Para Rafael Cardoso (2012, p. 251)

há uma tendência a enfatizar as partes mais instrumentais de cada área, aquele mínimo que o profissional precisa saber para o exercício rudimentar de seu trabalho [...]. A tarefa principal do ensino superior não é qualificar o trabalhador para ser mão de obra substituível, mas antes formar uma classe de trabalhadores capazes de pensar com autonomia sobre o trabalho que exercem.

Nesse embalo, nos veremos diante do perigoso terreno dos profissionais estabelecidos no mercado, inseridos nos quadros docentes sem a formação adequada para estabelecer uma postura crítica em relação ao designer gráfico meramente utilitário – reconhecido no senso comum como indivíduo detentor de responsabilidades especificamente técnicas –, contribuindo negativamente para a formação das próximas gerações de profissionais quanto ao aspecto teórico-reflexivo. E desta, para a seguinte. Donald Schön (2000) afirma que


a racionalidade técnica, a epistemologia da prática predominante nas faculdades, ameaça a competência profissional, na forma de aplicação do conhecimento privilegiado a problemas instrumentais da prática. O currículo normativo das escolas e a separação entre a pesquisa e a prática não deixam espaço para a “reflexão-na-ação”, criando, assim, um dilema entre o rigor e a relevância para profissionais e estudantes.


A figura do professor de "comportamento reflexivo" emerge ao contrapor essa prática, ao compartilhar com o seu aluno uma visão crítica quanto à inibição deste "conhecimento privilegiado", ou seja, aquele conhecimento acessado e empregado ao problema, em tempo real, à medida que leituras são feitas e colocadas à prova durante sua resolução. Aplica-se o conhecimento não-automatizado, discute-se formas de reverter o processo racional técnico, motiva-se o aluno a assumir a prática da didática através de uma intensa relação dialética, inserida e, por muitas vezes, desconhecida no campo do design gráfico.

Afirmo que o designer tem como mérito justamente a preocupação quanto ao processo de aprendizagem para a construção do conhecimento a ser compartilhado. O ato de aprender para ensinar é inerente ao desenvolvimento do seu trabalho, ou pelo menos deveria ser. Segundo Paulo Freire (1996, p. 136), "o sujeito que se abre ao mundo e aos outros inaugura com seu gesto a relação dialógica em que se confirma como inquietação e curiosidade, como inconclusão em permanente movimento na História".


Educar a si mesmo, o meio do qual é parte integrante assim como aqueles que o contratam para solucionar problemas de comunicação visual, o público consumidor do produto ou serviço e até os que apenas atribuem adjetivos. Cria-se uma cadeia de eventos, tendo o profissional em questão como veículo didático disseminador de valores e propósitos da área do conhecimento em pauta. Teorizar o design, dialogando socialmente, é fortalecer as bases para que sua compreensão seja valorizada, compartilhada e reconhecida nas relações cotidianas.


Formação reflexiva mediante projeto

Frente ao cenário desenhado até aqui, direcionamos o olhar para o interior da universidade – habitat do processo formativo que se defende e que se almeja neste escrito – e enxergamos a importância do projeto pedagógico e do conteúdo curricular na trajetória acadêmica do aluno e futuro profissional.


Para este autor, dentre as diferentes disciplinas que contribuem nesse processo, o 'projeto de programação visual: identidade visual' se destaca pela abrangência quanto as intervenções possíveis de serem realizadas em sala de aula pelo docente. Isso porque este campo de atuação detém o poder de reunir e materializar em si mesmo os demais conteúdos que permeiam o currículo, sob o mesmo foco, motivando o aluno ao diálogo interdisciplinar, pois é por meio deste que ele constrói seus argumentos, elucida e propõe caminhos teórico-práticos para sua afirmação e êxito profissional.
Se programação visual é o

termo [...] que identifica o campo de atuação profissional que manipula a linguagem visual para os mais variados meios de comunicação. Trata-se do planejamento e projeto de linguagem visual, adequados ao atendimento a situações de comunicação.
 (ASSOCIAÇÃO DOS DESIGNERS GRÁFICOS, 2012, p. 162).

E se "identidade visual é, por excelência, o trabalho do designer gráfico" (ASSOCIAÇÃO DOS DESIGNERS GRÁFICOS, 2003, p. 27), definida como o "conjunto sistematizado de elementos gráficos que identificam visualmente uma empresa, uma instituição, um produto ou um evento, personalizando-os [...]." (ASSOCIAÇÃO DOS DESIGNERS GRÁFICOS, 2012, p. 109), isso nos permite estabelecer na disciplina em questão a relação entre a discursividade, o planejamento, o projeto, a técnica e prática profissional, colocando em pauta as peculiaridades ao expor sua relevância no desenvolvimento do potencial reflexivo do aluno em sua trajetória acadêmica. Aborda-se aqui a formação do designer congregando não apenas o conteúdo programático relativo à aprendizagem nesta área, mas um importante, e talvez seu principal, campo de atuação.


Para o exercício desse ato intencional, tem-se o ato projetual, que possibilita-o ir além da função utilitária, pois "cabe ao designer intervir na realidade com atos projetuais [...]. Afinal, projetar, introduzindo as mudanças necessárias, significa ter a predisposição para mudar a realidade sem se distanciar dela." (BONSIEPE, 2011, p. 36). E para que sejam introduzidas, há de ser feita mediante o planejamento, pois


planejar é analisar uma dada realidade, refletindo sobre as condições existentes, e prever as formas alternativas de ação para superar as dificuldades ou alcançar os objetivos desejados. Portanto, o planejamento é um processo mental que envolve análise, reflexão e previsão. (HAYDT, 2006, p. 94).


No interior dessa disciplina e no consequente egresso ao mercado, o aluno tangibilizará intenções através de estudos que vão do contexto onde o objeto de estudo está inserido – história, relevância social e cultural, benefícios – à simbologia, tipografia, cores e aplicações destes em diferentes suportes. Tal qual um ator em fase de laboratório para uma personagem, o designer vai de encontro à essência daquilo que deseja dar vida. É necessário conhecer para representar. Durante o processo de investigação do objeto (segmento de mercado, serviço oferecido, usuário etc.) pensa-se o quão este precisará ser reconhecidamente verídico diante daquele com quem manterá uma relação comunicativa, e isso só será possível se for vivenciado através da pesquisa literária, de campo, dialogando com o meio, com profissionais e com pessoas que fazem parte do enredo da história a ser contada.


Falamos de formação e processo mediante atos projetuais precedidos por atos reflexivos, fundamentados na problematização, para então iniciar as experimentações e conclusões práticas através de conceitos, esboços, referências visuais, linguagem, tipografia, 
softwares, produção gráfica, para que se tenha um caminho definido, representado, eleito e elevado ao status de identidade visual. Didaticamente, por meio da argumentação, da discursividade, o projeto torna-se verdadeiramente compreendido para aquele que faz uso do trabalho do designer.

Essa relação de convivência com o meio reflexivo-projetual, contextualizado, verídico, é o que o diferencia do pseudo-profissional e o coloca a altura de sua formação, da maneira como enxerga, fala e entende sua profissão – diferenciando-se da mera prática utilitária-imediatista e da banalidade –, legitimado no interior da universidade,
 considerando de suma importância no processo de ensino e aprendizagem a trajetória formativa do docente e a necessidade de que esta "exige não apenas domínio de conhecimentos a serem transmitidos [...] como também um profissionalismo semelhante àquele exigido para o exercício de qualquer profissão." (MASETTO, 1988, p. 13).

Conclusão

Sem pretensão de esgotar o tema e com interesse maior em colocá-lo para debate, vimos que o designer gráfico tem a credencial que eleva o seu patamar de mero comportamental utilitário para o reflexivo, capaz de exercer intervenções em benefício da sociedade, ao favorecer a comunicação entre os indivíduos e ao participar das inter-relações culturais. A sua formação o permite se colocar como pesquisador, como sujeito que pensa o design, que reflete sobre sua própria prática. Além do serviço que oferece, sua contribuição também se encontra no campo teórico, na metodologia, no processo que caracteriza o seu conteúdo intelectual, na forma de perceber, aprender e compreender o meio em que está inserido.

Para o autor deste artigo, a relação dialógica do designer se estabelece com o mundo, e é inerente a sua formação. Uma profissão que tem a honra de possuir tal característica, por produzir e receber novos conhecimentos cada vez que se envolve num projeto e no instante em que se relaciona com diversos objetos de investigação para variados fins.


Vimos que esta relação é formatada, primeiramente, diante de um projeto pedagógico legitimado pela instituição de ensino, um conteúdo curricular adequado ao seu tempo e principalmente na presença do professor durante o percurso acadêmico. Na figura dele encontra-se uma grande e valiosa referência para o aluno do design adentrar o mercado, com postura condizente a sua formação e como, quem sabe, um futuro docente, ao praticar a didática e ao construir um profissional com visão pedagógica, almejando sempre a educação de novas gerações e a real valorização da profissão no cotidiano.

Referências

ASSOCIAÇÃO DOS DESIGNERS GRÁFICOS. O valor do design: guia ADG Brasil de prática profissional do designer gráfico. São Paulo: Senac, 2003.
ASSOCIAÇÃO DOS DESIGNERS GRÁFICOS. ABC da ADG: glossário de termos e verbetes utilizados em design gráfico. São Paulo: Blucher, 2012.
BONSIEPE, Gui. Design, cultura e sociedade. São Paulo: Blucher, 2011.
CARDOSO, Rafael. Design para um mundo complexo. São Paulo: Cosac Naify, 2012.
FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. São Paulo: Paz e Terra, 1996.
HAYDT, Regina Célia C. O planejamento da ação didática. In: ______. Curso de Didática Geral. São Paulo: Ática, 2006.
MASETTO, Marcos. Professor universitário: um profissional da educação na atividade docente. In: ______. Docência na universidade. Campinas: Papirus, 1998.
SCHÖN, Donald A. Educando o profissional reflexivo: um novo design para o ensino e a aprendizagem. Porto Alegre: Artes Médicas, 2000.
WOLLNER, Alexandre. O depoimento de um pioneiro. In: ASSOCIAÇÃO DOS DESIGNERS GRÁFICOS. O valor do design: guia ADG Brasil de prática profissional do designer gráfico. São Paulo: Senac, 2003.
 
*Texto originalmente escrito no interior do curso de 'Pós-Graduação em Docência no Ensino Superior' e adaptado para o blog.

domingo, 16 de novembro de 2014

PROJETO TRAMA 25 ANOS


Foi um imenso prazer e um grande privilégio projetar para uma marca que acaba de completar 25 anos de atuação. Uma imensa responsabilidade, pois trata-se de uma trajetória de sucesso, resultado de muito trabalho, do trabalho feito por muitos.

Testemunho aqui a dedicação impressa em cada cor, corte, vinco, dobra, em cada folha que entra e sai diariamente das máquinas dessa empresa. Certa vez disse o poeta: roda pião, o tempo rodou num instante, nas voltas do meu coração. E lá se vão 25 anos de uma longa jornada, repleta de grandes e diferentes desafios.

A ideia de introduzir um elemento simbólico à marca, o pião, residiu na busca por um elo com o passado, que carregasse sentimento, memórias, nostalgia, cor, que expressasse uma boa dose de apego ao cotidiano do interior de Minas Gerais, palco do trabalho realizado pela gráfica. À este simbolismo agrega-se o número 25, em traço que remete a entrada e saída do papel na máquina.

Agradeço aos irmãos Clair e Claudiney, e aos amigos que fiz no interior da empresa, pela oportunidade de vivenciar, mesmo que por um curto período, essa linda história.

Sucesso, meus amigos, pois vocês merecem!

https://pt-br.facebook.com/tramagrafica

terça-feira, 20 de maio de 2014

A BORRACHA E O CTRL+Z


Como é bom desfazer nossas ações com um simples clique. Este nos dá a chance de voltar alguns segundos no tempo e modificar o que havíamos feito equivocadamente, uma mudança de rumo para aquela ação, ou ainda, simplesmente, não realizá-la mais. É tudo tão fácil, acessível, moderno. Já me peguei olhando para os lados a procura de uma borracha para deletar (ops!), quero dizer, apagar o que eu acabara de escrever erroneamente e imaginar que seria muito mais prático trocar o papel pela tela, e dar um rápido Ctrl+Z para consertar o feito.

Certo dia estava escrevendo uma carta para minha mãe - aquela mesma, que precisa ser selada e colocada numa caixa dos correios. Estava próximo do segundo domingo de maio e, como não poderia estar ao seu lado naquela ocasião tão especial, escrevi.


A comunicação estabelece uma relação direta quando realizada com sentimento, com veracidade. Minha mãe, assim como tantas outras, reconhece a caligrafia do filho logo nas primeiras letras. Bem, será que realmente ainda existe a possibilidade de reconhecer mesmo, já que tudo é feito virtualmente? Talvez agora elas digam assim: 'meu filho não costuma usar esta fonte arial para escrever'.

Bom, reconhecendo ou não, de que forma for, sabe-se que ali encontra-se uma identidade, feito para ela, única e repleta de significados afetivos. Ao escrever, transferi para o papel como a vejo, através da nossa relação de convivência, por conhecê-la bem e, principalmente, por nutrir afeto genuíno. Trata-se de uma comunicação verdadeira, sincera, que mexe com quem a emite e demasiadamente com quem a recebe.


Traduzir estes significados é o grande desafio de quem trabalha com identidades visuais, com programação visual, com mensagens. Encontrei ali no papel, numa pequena carta, a forma ideal de falar com minha mãe. A forma que nos une, que ela gosta, sente e entende. Poderia ter sido na tela, é claro, hoje rimos e choramos na frente de um computador, encurtando longas distâncias, resolvendo problemas, pedindo pessoas em casamento e até casando de fato. A questão é saber como e em que suporte será realizada a comunicação.

Mas escreva uma carta de vez em quando, que seja um pequeno bilhete, mesmo que você perca tempo procurando por uma borracha. É bom lembrar que ainda somos humanos de vez em quando.


Abraços!

domingo, 24 de novembro de 2013

AS DIFERENTES "LEITURAS" DO DESIGN

Olá, amigos!

Indico o artigo "O design é um atalho mental", do designer Ricardo Leite, publicado no jornal OGLOBO, sobre a presença do design em nosso dia a dia e como lidamos com suas diferentes "leituras". Imperdível! 

http://oglobo.globo.com/blogs/conexao-design-rio/

Abraços!

sábado, 2 de novembro de 2013

DOCÊNCIA, DESIGN, COTIDIANO*


Vivenciamos processos 
contínuos em nosso dia a dia, mas estes não necessariamente configuram-se como processos evolutivos. Lidamos com a "sintaxe" da rotina, aquela que ordena, posiciona e estrutura nossas ações para um propósito qualquer, mas sem nos darmos conta da "semântica" de tais ações, aquela que possibilita a compreensão e o entendimento do que de fato estamos fazendo ou da real posição que ocupamos nestes processos, distanciando-nos – pelo forte imediatismo que nos abraça – dos significantes e significados em nosso cotidiano. Nos condicionamos ao exercício da prática pela prática.

Recordo-me de quando a obrigatoriedade do uso do cinto de segurança foi disseminada em campanhas publicitárias de tal forma que, ao entrarmos num veículo, o colocávamos automaticamente. E a partir de uma necessidade urgente e de caráter punitivo, tornou-se uma prática. Mas isso não foi, como ainda não é, suficiente para reduzirmos os altos índices de acidentes no trânsito. O ato de colocar o cinto é parte do processo que tem por objetivo a segurança do indivíduo; porém, não faz do condutor um bom motorista. A prática de atos em comum, por mais que tragam benefícios, não nos transformam em sujeitos socialmente ativos, não inibe o contínuo processo de atrofia do pensamento e do nosso comportamento. As relações acontecem e são construídas sobre e em vias de mão dupla.

Fazendo uma analogia a este fato, podemos contextualizar as áreas e campos de atuação profissional e abordar essas relações no dia a dia. Nos damos conta de que projetos, objetivos e metas individuais, as ambições, as cobranças que carregamos quanto a competência, eficiência e produtividade, a busca pela autossuficiência, nos distanciam do equilíbrio consciente entre os aspectos sociais, econômicos e ambientais, ou seja, aqueles inerentes a vida, onde deveriam residir nossos princípios.


Devemos cultivar sonhos, anseios, desejos, mas, ver o outro somente como adversário ou oponente, como ameaça constante, acaba por construir fronteiras, e estas, muitas vezes, de caráter hostil.


Cabe aqui uma questão: estamos refletindo – em meio a tantas tarefas ordenadas e normatizadas – quanto ao que é necessário para nos inserir e interiorizar questões relevantes em direção ao futuro, e de fato, coexistirmos para não simplesmente nos adaptarmos e existirmos em sociedade?
Mediadores para a prática da coautoria
Proponho uma reflexão sob a perspectiva de duas esferas que, para este autor, contribuem de forma concreta e significativa quanto ao despertar da conscientização e da motivação para o desenvolvimento dos processos de coautoria e do consequente equilíbrio no meio em que vivemos: o exercício da docência no ensino superior e sua importância para a formação do indivíduo e do profissional; e o design, como área do conhecimento cuja prática conduz e materializa diferentes intenções do ato comunicacional ao projetar interfaces para o cotidiano – palco das convergências e divergências, dos contextos instáveis, mutáveis e de constantes intervenções e transformações.

Na esfera educacional, luta-se – desde os primeiros ensaios da escola nova – por um ensino que forme sujeitos críticos, autônomos, de caráter transformador, atores conscientes de seus protagonismos, interados e integrados ao meio socioeconômico, político, cultural, histórico e ambiental do país. Entendo essa luta como o exercício da reflexão para a prática da coautoria, da corresponsabilidade, pois não existimos no vazio, não construímos nada sozinhos. Paulo Freire (1996, p.54) diz que "o fato de me perceber no mundo, com o mundo e com os outros me põe numa posição em face do mundo que não é de quem nada tem a ver com ele". O autor acrescenta que "minha presença no mundo não é a de quem a ele se adapta mas a de quem nele se insere. É a posição de quem luta para não ser apenas objeto, mas sujeito também da História" (FREIRE, 1996, p.54).

Vejo, por exemplo, que ações como a prática de separar o lixo, de deixar o carro na garagem, de imprimir em papel reciclado, são atos mecanizados e insuficientes para fazer de nós seres socialmente ativos, podendo ser interrompidos ao menor sinal de insatisfação, desvalorização ou descontentamento com o próprio ato em si. O fator para desenvolvermos o equilíbrio nas esferas do cotidiano reside na reflexão da prática e do consequente processo de coautoria em todas as instâncias que regem a sociedade, o que de fato não ocorre. Num mesmo espaço físico um indivíduo recolhe garrafas pet para reciclagem enquanto o esgoto de sua cidade é despejado no mar. O que você faz, faz para si, para o outro e com o outro.

A 'sustentabilidade', assim como o discurso em torno dela, tornou-se uma constante, como os hábitos no início do texto, uma prática que muitas das vezes não passa de mera ilustração. Pensar com mentalidade acadêmica – sem que a circulação de conhecimento não se restrinja ao interior da sala de aula, aos auditórios, sem que recaia em academicismos – configura-se numa contribuição urgente para que a sociedade entenda o que de fato esta palavra significa no dia a dia, para enfrentarmos conscientemente o mundo real e suas complexidades. De acordo com Rafael Cardoso (2012, p. 42),
uma das grandes vantagens de reconhecer a complexidade do mundo é compreender que todas as partes são interligadas. Sendo assim, as ações de cada um juntam-se às ações de outros para formar movimentos que estão além da capacidade individual de qualquer uma de suas partes componentes.

A universidade carrega em seu interior um papel essencial quanto a legitimação da busca para não simplesmente nos adaptarmos ao mundo, como colocou Freire (1996), mas de nos reconhecermos como sujeitos capazes de promover mudanças no meio em que vivemos, motivando rupturas, quebra de paradigmas, a construção de novos questionamentos e a busca por soluções coletivas, como propõe Cardoso (2012).


Isso se inicia na escola e se confirma ao longo da trajetória acadêmica do aluno, diante da relação dialética entre educador e educando, independentemente da área de conhecimento e do propósito para o qual se destina. Marcos Masetto (1998, p. 23) entende que "é importante que o professor desenvolva uma atitude de parceria e corresponsabilidade com os alunos, que planejem o curso juntos, usando técnicas [...] que facilitem a participação". O autor diz que deve se considerar em âmbito acadêmico os "alunos como adultos que podem se corresponsabilizar por seu período de formação profissional" (MASETTO, 1998, p. 23).

Segundo Pedro Goergen (2003, p. 102), este conceito de "formação" deve ser entendido "no seu sentido mais amplo e profundo de conscientização e familiarização com os grandes temas e problemas que envolvem e preocupam o ser humano na atualidade". O autor defende "que o dever formativo é parte inerente ao compromisso social da universidade" (GOERGEN, 2003, p. 102).

Este pensamento nos conduz ao cerne da discussão a respeito da contribuição do ensino superior para questões sustentáveis. Trata-se de um tema que deve ser trabalhado de maneira interdisciplinar no conteúdo curricular de cada campo de atuação profissional, de maneira que haja uma integração e uma consequente aplicação imediata além dos corredores da universidade. Tomaz Tadeu (2011, p. 15) complementa a questão ao colocar que
nas discussões cotidianas, quando pensamos em currículo pensamos apenas em conhecimento, esquecendo-nos de que o conhecimento que constitui o currículo está inextricavelmente, centralmente, vitalmente, envolvido naquilo que somos, naquilo que nos tornamos: na nossa identidade [...].

A esta formação e a esta trajetória curricular credencia-se o indivíduo e profissional – neste caso, o designer – a se inserir no mundo de forma a enxergar sua competência e, principalmente, sua capacidade de reflexão sobre a própria prática, integrando-se aos problemas do dia a dia. Cardoso (2012, p. 43) enfatiza que "se todos adquirirem alguma consciência do tamanho e do intricado das relações que regem o mundo hoje, será possível caminhar coletivamente em direção a um objetivo, seja qual for". Ele complementa o pensamento ao dizer que "o grande inimigo é sempre a ignorância, e as ideias preconcebidas que derivam da falta de exercício do pensamento" (CARDOSO, 2012, p. 43).


Assim, o processo de coautoria, amadurecido no meio acadêmico, se estenderá às diferentes atuações profissionais para então ser legitimado nas relações com o cotidiano. O design é uma delas, cuja substância maior é formada pela prática projetual em diferentes campos. Bonsiepe (2011, p. 85) observa que:
à primeira vista, talvez não seja evidente que a apresentação de conhecimentos requer a intervenção de atos projetuais. Sem eles, a mediação, a transmissão e a apresentação dos conhecimentos não funcionariam. Essa mediação ocorre em uma interface em que o conhecimento pode ser percebido e assimilado pelo usuário.

Bonsiepe (2011) revela a "imprescindibilidade" do design e suas especificidades na construção dessas interfaces para uso cotidiano, do recolhimento e análise de dados a sua organização para pronta assimilação do usuário, podendo ser no acesso a uma estação de metrô, na sinalização no interior de um hospital, num documento impresso de alguma corporação ou no acesso on-line a uma instituição financeira qualquer. Projeta-se conhecendo as pessoas, com as pessoas e para as pessoas, pois tal prática possui significância, benefício para o outro.
 

Entendo que a contribuição desta área para "com os grandes temas e problemas que envolvem e preocupam o ser humano na atualidade", como Goergen (2003) já evidenciou – e leia-se aqui sustentabilidade –, está justamente em se abrir ao mundo.


No campo de atuação do designer gráfico, por exemplo, prega-se na esfera do senso comum e entre os próprios profissionais, a percepção reducionista e restrita como sujeito detentor da capacidade técnica imediatista para solucionar problemas de comunicação visual, como área subordinada ao marketing e a publicidade, como aquele que promoverá de forma única e exclusiva o diferencial estético de uma empresa para sua concorrente, de um produto para o outro. Sua colaboração vai além da criação dos elementos gráficos que sustentam a ampla exposição de uma marca no mercado através dos diferentes suportes de divulgação.


Hoje, mais do que nunca, cabe ao designer contribuir ao pensar em sintonia com empresários e consumidores para o desenvolvimento de projetos que reduzam o 'impacto' de uma marca no meio ambiente. A universidade e o docente tem importante papel neste cenário ao contribuir para a formação e percepção do profissional, principalmente para a prática sustentável. No campo editorial, para citarmos um breve exemplo, editoras publicam livros com a singela criação de capas sem grandes áreas de impressão chapada, cujo objetivo é evitar o excesso de tinta visando facilitar o processo de reciclagem do papel.


O design tem a facilidade de infiltrar-se no dia a dia de uma corporação, de transitar entre instâncias, setores e negócios, participando desde o início do pensamento estratégico para a criação de novos produtos e serviços, na gestão de marcas, pois tem a capacidade de lidar com recursos intangíveis. Este profissional está inserido como parte integrante da chamada "economia criativa", onde alinha-se o conhecimento à criatividade, dois alicerces para as questões sustentáveis.


Como afirma Rique Nitzsche (2012, p. 161), existe "vida inteligente e estratégica na prática do design". Para isso, é necessário que este profissional transcenda as funcionalidades, mas sem desprezá-las, se reconheça e seja reconhecido como sujeito capaz de sentar-se à mesa para grandes discussões, propor caminhos e a busca por soluções coletivas inovadoras para necessidades reais e complexas, em âmbito social, econômico e ambiental.
Soluções criativas e coletivas
Refletimos ao longo deste escrito, que todos os saberes nos conduzem para o mesmo fim, o de coexistirmos, pois nenhuma "competência" termina ou se faz apenas em mim ou no outro. Necessitamos compartilhá-la em benefício do todo e não somente colocá-la "à venda". Para adquirirmos consciência do que é ser sujeito socialmente ativo, participativo e colaborativo quanto as questões do cotidiano, precisamos reconhecer que não basta o hábito, a prática pela prática, é necessário perceber que vivenciamos um intenso processo onde a posição que ocupamos é a mesma do outro, a de coautor.

Tal percepção deve ser motivada nas escolas para então ser desenvolvida com maturidade ao longo do processo formativo acadêmico do sujeito, sendo legitimada ao ser colocada à prova por meio das diferentes áreas do conhecimento. Não há tempo a perder com a possível competência do "eu", mas sim na eficácia do "nós". Pensa-se em "soluções criativas" com "soluções coletivas" contextualizadas a dinâmica mutável da sociedade, onde o design desempenha importante papel ao pensar projetos desde o seu embrião, para então materializá-los.


Vimos que há conteúdo intrínseco e inerente à formação deste profissional que o torna sujeito detentor de conhecimentos, que o credencia a se colocar como indivíduo provido de capacidade intelectual e técnica para ser reconhecido com maior abrangência social, como 'sujeito do cotidiano'.

Que esta reflexão circule e se transforme pelos corredores, pelas salas de aula, pela universidade, entre docentes e futuros profissionais do design, que atinja os empresários, instituições e corporações, e avance para o cotidiano, em busca de soluções para desenharmos uma sociedade que abrace as próximas gerações de forma consciente e renovada.

Referências:

BONSIEPE, Gui. Design, cultura e sociedade. São Paulo: Blucher, 2011.
CARDOSO, Rafael. Design para um mundo complexo. São Paulo: Cosac Naify, 2012.
FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. São Paulo: Paz e Terra, 1996.
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*Texto originalmente escrito no interior do curso de 'Pós-Graduação em Docência no Ensino Superior' e adaptado para o blog.