Uma pergunta recorrente, daquelas que fazíamos e ainda ouvimos muito na fase escolar, me vêm à mente após adentrar os estudos da disciplina 'Didática I', ministrada pela professora Adélia Koff (2011), inicialmente através da abordagem pedagógica tradicional, aquela enraizada no ato de "transmitir informação". Então perguntamos, por que devo aprender isso? ou quem sabe, para quê aprender aquilo?
Tal questionamento acima tem sua razão de existir na trajetória escolar do aluno. Se não conseguimos projetar sentido e significado àquilo que está sendo "transmitido" em sala de aula, não iremos exercer nem mesmo interiorizar tal conteúdo, praticando o simples ato de decorar. Chamaria de 'educação finita', aquela com prazo de validade. O indivíduo se equilibra naquilo que é dito e transmitido, então memoriza e reproduz até que o conhecimento seja substituído por outro e mais outro, percorrendo toda a sua jornada escolar.
O impacto é negativo e a longo prazo, pois adquiri-se ojeriza àquelas disciplinas comumente rotuladas como 'desnecessárias' pelos mesmos que disseminam as perguntas colocadas em pauta. O efeito é prolongado e desastroso, com consequências no instante em que o aluno ingressa no ensino superior. Vemos que o hábito de lidar superficialmente com temas sócioculturais, políticos e históricos se estende sem criticidade. Um ensino que produz 'seres acríticos'.
Devemos aprender a aprender, já dizia a abordagem escolanovista. Aqueles que abraçam tal prática conseguem projetar sentidos e significados. Percebem que estão mergulhados em um processo de construção e reconstrução, de transformação e de descoberta, de si para si mesmo e para os outros, continuamente. Esta abordagem enfatiza o conhecimento construído a partir do contato direto do sujeito com a realidade do mundo. Um processo em via de mão dupla.
Tal conceito se encaixa perfeitamente numa tendência atual do design, conhecida por 'design thinking', que de forma resumida seria a ação ou prática de pensar o design. Ellen Kiss, professora e coordenadora acadêmica da Pós-Graduação em Design Estratégico da Escola Superior de Propaganda e Marketing de São Paulo (ESPM) nos diz que:
O foco de abordagem é totalmente no usuário, no indivíduo. É entender, compreender quais as reais necessidades, desejos das pessoas, como elas se relacionam com as outras ou com determinados produtos ou serviços. Muda o foco da capacidade produtiva de uma empresa para uma demanda do usuário. (...) Vou fazer uma investigação muito mais profunda a respeito do indivíduo do que uma pesquisa quantitativa poderia me fornecer.
A coordenadora enfatiza que esta tendência do design trabalha "no formato de colaboração, colocando todos os agentes em uma mesma área para trabalhar e criar coletivamente. Isso permite uma integração muito maior."
Racionalidade, eficiência e produtividade. Características cada vez mais valorizadas e requisitadas em nossa sociedade, em nosso dia a dia, exaltadas pela abordagem tecnicista e neotecnicista. Adquiri-se conhecimento técnico-prático para em pouco tempo abastecer uma área específica do mercado cuja demanda grita bem alto e nem sempre em português. Somos reconhecidos pelo desempenho em quantidade, principalmente, no menor tempo possível. Precisamos ir além disso e equilibrar os pesos entre as necessidades mercadológicas e a formação do cidadão. E como diz o professor Marcos Masetto (1998):
Nossos alunos precisam discutir conosco, seus professores, os aspectos políticos de sua profissão e de seu exercício nesta sociedade, para nela saberem se posicionar como cidadãos e profissionais.
Concluo considerando como espinha dorsal, assim como a própria disciplina o faz, os princípios abordados pela pedagogia crítica, que além de expor e favorecer o diálogo nas relações interculturais em diversos âmbitos, relaciona-se diretamente com a formação do designer e com sua a prática. Pelo menos deveria ser assim. Liberdade para transitar em diferentes campos e a valorização das diferenças estão ligadas aos processos de criação dentro dos mais variados projetos.
Pensar design é teorizar e praticar o exercício das relações entre os diferentes grupos socioculturais, é discutir em esferas além da materialização de uma marca, peças e produtos, é buscar o benefício da integração, aproximar pessoas, é investigar, e como a 'didática crítica', pautado na pluralidade.
Referências:
KOFF, Adélia Maria Nehme Simão. As abordagens pedagógicas I e II. Texto especialmente elaborado para a disciplina Didática I do Curso de Docência no Ensino Superior da Estácio de Sá. Rio de Janeiro, 2011.
KISS, Ellen. Conceito do design thinking entra na pauta da criação. Disponível em: http://www.designbrasil.org.br/noticias/conceito-do-design-thinking-entra-na-pauta-da-criacao Acesso em 21 out. 2011.
MASETTO, Marcos Tarciso (org.). Docência na Universidade. Campinas, SP: Editora Papirus, 1998.
*Texto originalmente escrito no curso de 'Pós-Graduação em Docência no Ensino Superior' (Estácio-RJ) para a disciplina 'Didática I', ministrada pela Professora Adélia Maria Nehme Simão e Koff. Reescrito para o blog.



